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Buenos Aires, HORA:ZERO | N.06




1. Depois de décadas, um poeta chega para visitar um velho amigo, e é recebido por sua família, pelos filhos dele que o saúdam e lhe trazem verduras frescas. Espera-o uma mesa posta e farta, somada à alegria do antigo companheiro, que de uma só vez toma dez taças de vinho. Apesar da noite maravilhosa, ao fim do encontro pesa sobre os dois o tempo que levarão para se reencontrar, os anos vindouros, em que estarão mais uma vez separados por montanhas, por instáveis rios, por um mundo de fantasmas, que, como delicados cogumelos brancos, não param de surgir por toda parte.


2. Este é o tema de um dos gandes poemas de Du Fu, figura maior (ao lado de Li Bai) da Dinastia Tang, um curioso momento da civilização chinesa do século VIII, em que as habilidades líricas de uma pessoa permitiam-lhe almejar os altos cargos governamentais. Imaginemos concursos públicos que em vez de demandas técnicas e domínio de legislações, pedisse composição clássica e moderna, conhecimento dos versos famosos do passado e do presente. Talvez isso explique os 50.000 poemas Tang que sobreviveram até nosso tempo, além dos 2.000 autores que tiveram seus nomes preservados pela história. Alguns estudiosos creem que tal prestígio adviesse do fato de os poetas estarem mais perto do Tao, do lugar em que todas as coisas morrem e se renovam, perceptível somente aos capazes de contemplar o mundo com a máxima atenção. Qualquer que seja o real motivo cultural, tais curiosidades sempre acentuam em mim a impressão de ter nascido no lugar e no tempo errados.


3. Trata-se de um poema de celebração, do milagre que é reencontrar um amigo, uma amiga, também do poder curativo do vinho, mas, sobretudo, de como a vida seria mais digna, ao menos à minha leitura, se tivéssemos pelo menos uma semana de folga no mês para que pudéssemos libar com os amigos, sem a angústia que a raridade de tais encontros promove, melancolicamente maior à medida que a maturidade nos condena ao cimento da rotina.


4. E por infrequente, pela fugacidade das horas, tais encontros acabam tendo um travo agridoce, como no poema, que confesso ter entendido de todo agora nesta vida no estrangeiro, ou “desde dentro”, como dizia um crítico, o momento em que um texto se converte em inalienável experiência pessoal. Em outras palavras, ao recebermos as visitas dos amigos aqui, somos o anfitrião do poema: há uma alegria imensa, a mesa posta, mas também a sombra dos dias contados, que, é provável, implicarão num voltarmos a vê-los daqui um ano, senão mais.


5. Claro que isso pode passar com amigos que vivam na mesma cidade. Mas a ilusão da proximidade, como qualquer ilusão íntima, oblitera a sensação de distância. Além disso, uma vez que estamos longe, desaparecem as chances dos encontros fortuitos, de uma tarde vadia num café, de um almoço de última hora.

6. Ter amigos por perto, sem que se nos apartem a distância e o tempo, é tesouro rubro.

7. Quando chegamos aqui, depois de uma viagem carregada de burocracias pelas restrições pandêmicas e por trazermos nossa gata (até uma firma do ministro da agricultura foi necessária), esperavam-nos o Alexandre e a Guta, por volta das cinco da manhã, um horário em que só a amizade comparece. E ainda que ele tenha esquecido a chave do apartamento em que ficaríamos, tê-los ali — e depois com frequência nos meses seguintes — fez-me entender o valor que os poetas Tang tão bem atribuíram à amizade: num mundo em constante movimento, em constante mutação, há um lugar que também se move, mas permanece, porque atado com a máxima beleza, um porto afetuoso em que reconhecemos a nós e aos outros. Se assim é, por que tais conjunções acontecem com tamanha raridade é uma dessas coisas que espero um dia possamos entender.


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