Buenos Aires, HORA:ZERO | N.04



1. Las Malvinas son argentinas. Não há dúvida, ao menos para tantos argentinos. Em muitos lados da cidade, nos espaços governamentais, pode-se ler a máxima como um desses fatos alternativos à la Trump, luminoso exemplo da potência da linguagem de dizer coisas de um modo afirmativo quando a realidade objetiva diz o contrário. Um exemplo prático, quem haveria de negar, de como funciona a ficção.


2. Dia desses, ao descermos de um táxi, depois de tentar puxar duas conversas que não frutificaram, desejamos ao motorista que tivesse um bom dia, que respondeu, rufando as costelas nos tambores do peito: Feliz día de nuestra patria argentina.


3. Na fila do câmbio, à espera de trocar uns desvalorizados reais por pilhas e pilhas de hiperdesvalorizados pesos, torcíamos para que nos pagassem em notas grandes, as cobiçadas e alaranjadas notas de 1000. Bilhetes de 100 ou 200 (2 e 4 reais, respectivamente) são um estorvo concreto: além do sebo do uso, ocupam um volume anacrônico para serem transportados, uma experiência que me remete a um assalto de banco ou aos anos 1980, àquelas pilhas de cédulas carimbadas, com não sei quantos zeros cortados, que levávamos nos bolsos sem bem lhes saber o valor.


4. Mas eu falava de nossa espera e da sorte de receber em notas graúdas. Transformados, por necessidade, em conhecedores dos trâmites de câmbio, logo descobrimos que as agências sempre têm todas as notas, e que receber as mais estaladiças vai muito da boa vontade do caixa, se vai ou não com nossa cara.


5. À nossa frente, depois de uma longa espera, estava uma moça que descobri inglesa assim que chegou ao guichê. Mais que o passaporte, tinha aquele sotaque inconfundível do Hugh Grant. Tentou parecer simpática, num espanhol miserável (quase pior do que o meu), e não demorou para que o caixa começasse a puxar pilhas e mais pilhas de notas de 100 — eu recém o havia visto pagar a um outro tipo com notas de 1000. Aos protestos da inglesa, que mostrou uma pequena bolsa que trazia a tiracolo, ele disse, lo siento. A inglesa protestou, lamuriou-se, depois disse alguns desaforos dignos dos Pistols, ao que ele seguiu empilhando os muito bolos de evitas, com indisfarçável prazer.

6. Logo que ela se afastou, eu vi — creio que só eu no mundo vi — porque a Tainá disse não ter reparado (sou quase aquele índio velho que em I-Juca Pirama asseverava “Meninos, eu vi”), o sujeito do caixa dizer entre dentes: las malvinas son argentinas. Ato contínuo, recebemos em notas de 1000. Suponho, mas não afirmo, que ele me deu uma piscadinha.

7. O patriotismo é um momento pequeno de nossa pequena humanidade. Que culpa podia ter aquela inglesa de ser inglesa? Parece-me absurdo, claro, que a Inglaterra seja dona de uma ilha ao sul da América, mas não se pode esquecer que tal guerra foi também uma tentativa desesperada de legitimar uma das mais sanguinárias ditaduras do continente. Ademais, aqui está presente este talento tão comum ao sul do mundo de converter derrotas fragorosas em estranhas vitórias. Meu time de futebol sempre foi pródigo em usar deste recurso.


8. Às vezes penso que negar as raízes ou prender-se a elas são duas faces do mesmo equívoco.

9. Por via das dúvidas, fizemos uma lista dos feriados pátrios, e começamos a colecionar alguns bordões cívicos. Por táxis e câmbios, ainda aprenderemos a chorar pela Evita. Que a Madonna possa nos ajudar.