Buenos Aires, HORA:ZERO | N.11



1. Sonhei que escrevia um conto. Um poeta devia sonhar em versos, mas meus sonhos são prosaicos.


2. Desta vez, meu inconsciente contratou Lucas Gonzaga para fazer a edição, pois era um trabalho dinâmico e certeiro na troca das imagens. Eu me via a uma mesa digna, escrevendo, caneta-tinteiro de luxo entre os dedos, aquele acetinado Montblanc, conhecido apenas nos freeshops da vida, enquanto as imagens da história se projetavam na parede a meu lado, nítidas à escuridão da madrugada. Nelas, havia duas pessoas, frente à frente, interagindo por meio de dispositivos que pareciam pequenas caixas de som. As máquinas operavam com um banco de frases de efeito, cujos tons variavam do altamente motivacional ao vituperantemente acusatório, e os atores haviam selecionado o modo retrô de comunicação.


3. Semana passada sonhei com um sujeito que tinha uma barba que crescia dez centímetros por dia. No começo, lutava para apará-la, a fim de levar uma vida convencional. Com o tempo, como todos nós, cedeu ao destino, desistiu de tudo e passou a dormir como um faraó, enrolado nas próprias faixas capilares, reunindo todos os seus bens num monoambiente de fundos, uma homenagem, suponho, à clássica e portenha maneira de se empiramidar.


4. Volvamos ao sonho da última noite, às duas criaturas, aos dispositivos, às falas no modo retrô.

A: Se você não vê o problema, você é parte do problema.

B: O que não é tóxico para você, pode ser tóxico para mim. Seja gentil.

A: A gentileza é uma construção social da classe dominante.

B: O amor não é uma construção. É gratuito e superior. É energia e empatia.

A: Os isentos têm as mãos manchadas com o sangue dos inocentes.

B: Você precisa investir na narrativa da positividade, na sustentabilidade do planeta.


5. Um conto natimorto. O realismo há muito perdeu seu charme.

6. Depois disso, cogito sair da cama na Capital Federal. O barulho do tráfego na General Las Heras dispensa o despertador. Confiro o celular. As frases de efeito continuam ali, certos pesadelos duram mais. Fecho os olhos por um momento, mas os argentinos têm um amor às buzinas que em muito supera o nosso, se podem crer que isso seja possível. Suas sirenes não ficam atrás. Ou todo o povo está morrendo, ou são cães a ladrar por princípio, como diria Drummond.


7. Preparo o café. Dica de viagem aos meus paisanos: tragam café moído. No super as marcas com preços amenos vêm com açúcar misturado, uma forma abominável de mistério. Terminei por comprar um moedor, e o ter de triturar os grãos acabou adicionando uma mecânica saborosa às manhãs, à paz da rotina, antes que as notícias do país que não fui capaz de purgar comecem a me atingir.


8. O Brasil, como no Brasil, uma assombração recrudescida. De dia. E muito mais à noite.


9. Sonhar em prosa realista ou mesmo fantástica é, de algum modo, um alívio, um remédio. Facilitam-me ler a minha condição. Noite dessas, contudo, sonhei em prosa alegórica.


10. Um guarda da fronteira, numa madrugada de tanta neblina que não permitia ver nenhum dos lados, pedia-me a palavra-chave para validar meu passaporte. Eu dizia, passaportes valem por si só, ao que ele contestava: sem o passe, nada feito.

11. Tentei todas as senhas, reais e inventadas, inutilmente. Horas de vapor e branca escuridão. Até que a noite e a neblina se foram dissipando. Percebi estar no meio da pampa. Ao olhar para o guarda, estava ali um espantalho.


12. E lhes digo que naquela manhã nem o café me salvou.