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2 — Martín Gambarotta



Na segunda estante,

um garfo torcido entre o álcool puro

e as giletes usadas.

Sobre a geladeira treme

uma estatuazinha: é um tenista banhado em ouro falso

no ato de sacar o primeiro serviço.

Cada minuto um troféu de plástico.

E em que momento um homem perde

a noção e sua mente fica em branco:

quando não pode dormir e não aguenta

o fato de estar desperto.

Como se chama isso pendurado na parede,

Como se chama isso que cobre a lâmpada.

Rodeado de coisas sem nome também a mim

teria gostado começar isso

com: de noite junto ao fogo

mas aqui

não há, salvo em potência, fogo

e isso que se divisa, uma escuridão

baldia sobre nós, a duras penas

pode ser chamada de noite, nada

faz supor o final da transmissão noturna

que agora termina e deixa

a tela nevada

transportando à penumbra do corredor

a oscilação de um ar gris que não provoca

nenhuma emoção salvo nas coisas.

Antes do corte da programação esteve

o voo de uma mariposa na tela

em contraponto à trilha sonora de Chaparral,

uma japonesa que se atirava na piscina,

as legendas em verde diziam:

“por acaso não é você a de olhos azuis”,

em outro canal, o documentário sobre câncer de pele

e em outro um delfim saltando atos de fogo

e de novo a japonesa secando a nuca

com a toalha, olhando para a câmera

troca e outro diz “só se escreve

sobre a morte por dinheiro.”


Cadáver, isto já não é rock,

alguns roubam estéreos, outros roubam esposas

mas todos roubamos.

Diferenciando a dor da abertura siciliana

vai até a peça e numa folha escreve

a jogada de uma partida por correspondência

que vai reproduzir um tabuleiro em Concórdia

em outra noite. Alguém lê

a nota: Xeque,

torre negra toma peão do bispo um

mate

e sabe que todas as suas peças estão perdidas.

Não há cor, unicamente

resta a variação nos tons

de cinza que, no corredor,

se fundem com o lampejo aguado de um anúncio de iogurte

que vem da rua:

PORQUE O MAIS IMPORTANTE diz É VOCÊ MESMO.



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