DA TORRE - Uma pequena diferença


Já não me recordo, se num texto ou num poema, escrevi de passagem sobre meu professor de educação física do segundo grau, um minimalista do ofício, que nos esperava com a bola debaixo do pé, tendo o trabalho apenas de rolá-la no areião à nossa chegada, enquanto extinguia seu cigarro. Nada de discursos motivacionais, nenhuma educação de fato, um período de futebol silencioso, vital, sem instruções ou alongamentos. Vez ou outra, ele se levantava do banco, quando havia uma entrada mais maldosa do que a brutalidade consuetudinária, diante do risco de algum pé quebrado ou ruptura de ligamento. Então abria os braços, duas arestas diagonais e descendentes, as mãos espalmadas, era o seu, por favor, marginais.


Quando me tornei professor, em tempos de maior rigor burocrático, muitas vezes invejei-lhe o modo de fazer chamadas. Ao chegarmos, assim que nos passava a pelota, perguntava, quem faltou, e então rabiscava qualquer coisa numa caderneta sebenta, com uma pequena e enferrujada e apertada espiral. Anos depois, ainda me encanta a transparência de sua atitude, tão avessa às vitrines digitais em que ora nos miramos e fazemos mirar aos outros, mais bem espelhos de nossa vaidade. Ademais, qualquer um sabe que não se faz educação física decentemente em 45 minutos semanais, que é uma mascarada oca de currículos ocos: ele tinha há muito desistido de fingir jogar o jogo.


Sempre tive simpatia pelos desistentes que encontram um jeito de sobreviver em meio à batalha.


Vez ou outra, no entanto, como todos nós, ele capitulava em seus princípios, e era obrigado (ao que nos obrigava) a fazer testes de corrida, a recolher nossos dados biométricos. Nessas ocasiões, a carranca que lhe era característica adquiria traços ainda mais marcantes, não mais as insígnias de um ranzinza, mas as de um triste.


Gordo, eu me confrangia diante do momento da pesagem — que envolvia também as gurias (normalmente separadas pelo vôlei). Quando os alunos subiam à balança, o peso era cantado pelo professor; quando as alunas, pela professora. A marca máxima, 80kg, ainda era detida pela Orca, uma colega que sentava na primeira fila (e que depois do apelido nunca mais compareceu a esta humilhação pública). Meus 82 marcariam um novo recorde, eu sabia. Era tarde para culpar as promoções de bolachas das lojas Americanas. O ponteiro foi aos 83. O professor cantou 79. E sorriu de leve.


Nunca mais pesei tão pouco.

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