DA TORRE - Prego



No começo do século eu começava a abandonar a música profissional: os shows minguavam, a disciplina para os estudos esmorecia, e era preciso ganhar dinheiro. Assim voltei à faculdade em busca de um novo caminho, que passava por dar alguma solidez à carreira de tradutor e contista, que eu já exercia há alguns anos, mas também para, possivelmente, me tornar professor.

Vista da distância do tempo, parece uma decisão coerente, mas a coerência é sempre uma noção tardia que nos vendemos como evidente e lógica.

Entre meus colegas de mestrado, estava o Prego — nos contratos sociais Sergio Fischer —, já então um amigo querido, grande leitor de poesia, em especial de Camões. Aliás, brincávamos que Os Lusíadas só eram compreensíveis em sua edição comentada. Ouço-lhe ainda a risada aguda, que se voltava para dentro, como uma cascata em sentido contrário, especialmente cômica quando gargalhava, como na vez em que a lista de mais vendidos da Feira do Livro trazia Os Lusíadas, de Sergio Fischer em suas mais altas posições.

Das coisas que os fados nos levam, entre as mais acerbas, vão-se as risadas dos amigos.

Certa feita, numa cadeira de teoria literária sobre alteridade, só o que se falava na turma era do Outro. O grande Outro. O Outro isso, o Outro aquilo. Alguém chegou a declarar inclusive sua paixão pelo Outro. Junto à parede, estava o Prego, com um olhar malicioso e patife. Na saída ele me diz: para semana que vem vou mandar imprimir na camiseta uma estampa do Francisco Cuoco, secundada pelos dizeres: Francisco Cuoco é O Outro.

Mas é mesmo no Bar do Antônio que o vejo, a voz modulada e grave (em contraste com o riso), com aquela rara nobreza de não reivindicar protagonismo para si numa conversa, nem pesar o mundo com o desencanto típico dos que sabem que a vida jamais oferecerá as riquezas da literatura. Seu lado triste, que algumas vezes percebi, era matéria reservada.

Tempos depois, nasceu-lhe um filho e também recrudesceu a doença contra a qual já lutava.

Quando o Prego chegou à fase terminal, eu estava longe de Porto Alegre. Pensei nele diversas vezes durante a viagem e tive certeza de que não voltaria a vê-lo vivo. Aguardei por um e-mail que chegou, contudo, mais rápido do que eu imaginava.

Tudo isso para te dizer, meu amigo, que uma década e meia depois, a memória ainda te guarda, feito um ícone, com a melhor camiseta jamais estampada.

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