DA TORRE - Fachadas


Passei uma parte robusta da minha década dos trinta anos em cafés e livrarias, naquela forma autorizada de vadiagem que um dia foi a vida intelectual, entre amigos que não concediam nada à política nanica do mundo, aos dramas das causas sociais de ocasião, aos compromissos ferozes dos carnês que nos assolavam.

Que escandalosa alienação.

Que então começava a ser alvo de ativistas mequetrefes, sempre em busca de uns espantalhos feito nós para suas publicações.

Avessos ao rumor do tempo, como os ignorávamos. Tínhamos ocupações mais excelsas, precisávamos legislar e deveras legislávamos: Quantos problemas inúteis resolvidos em discussões acaloradas, quantas soluções natimortas para a espécie, propostas com a grande virtude de em nada alterarem a realidade inalterável. E quantas rusgas por uma frase, por teorias formuladas, testadas e abandonadas entre um espresso e outro. Nunca contribuímos para a melhoria do país, é fato, mas ao menos ajudávamos o combalido mercado livreiro — além de aportarmos uma cifra (não de todo módica) ao mercado do café.

Ao lembrar daquelas tardes, ouço ainda as risadas dos amigos, o ruído do vapor da máquina italiana, o tilintar das xícaras na pequena copa bem próxima ao nosso lugar cativo. Talvez minha memória seja mais sensível aos sons do que aos cheiros, talvez seja assim também para mais gente, é alguma coisa a cogitar — e alegra-me ter um capim a mais para ruminar nesta manhã. Mas creio que amávamos, sobremodo, o caos organizado que lugares como esses promoviam, pelo modo como deixavam o mundo entrar somente através das vitrines, filtrado, em nossa mesa, em cada outra mesa, versões diminutas da vida, preservadas pela cortesia das conversas em que as pessoas se ouviam.

Quem sabe o que será deste século sem tais cafés e livrarias? O que de humano estará perdido em lugares assépticos, cafés do Kilimanjaro e o jazz pasteurizado das trilhas incidentais?

Nostalgia. Mas o que há de errado com a nostalgia, perguntava alguém.

Para mim nada. Sempre gostei das vozes conscientes de terem chegado demasiado tarde à festa, dos autores que revelam a vida depois de a estrada ter sido percorrida, sem termos aprendido nada ou quase nada, para quem a juventude é um estabelecimento que fechou há anos, que só podemos cruzar pelo lado de fora, perscrutando a fachada, em busca de um lampejo para além dos vidros baços.

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