DA TORRE - Corra, Pedro, corra


Nunca tive histórico de atleta. Qualquer foto tomada ao longo dos anos bem pode atestá-lo — e se há alguma coisa a lamentar (além dos índices glicêmicos) é não ter tido o consolo de uma louvação por meus apoios de barriga, hoje costumeira até nos círculos de poder. Naquela manhã neblinosa de 1994, no entanto, era preciso correr 100 metros em quinze segundos, numa situação de perder ou perder mais: Atingir a marca era ficar no C.P.O.R. e não ser condenado a cumprir o serviço militar em forças mais pesadas do exército, como a P.E. ou o 18.


Antes das baterias, enquanto alguns se aqueciam, uma autoridade camuflada desfraldava ditos patrióticos, exigia-nos o máximo de empenho para integrar o time privilegiado da corporação. Creio, mas não tenho certeza, que usou a própria vida como exemplo de garra e determinação. Para ser justo, eu só pensava naquele momento por que não arrumara um atestado, um pistolão, algum dos feitiços brasileiros aplicados por tantos amigos e conhecidos.


O primeiro pelotão correu entre doze e treze segundos. Não eram nenhum Ben Johnson, quinze me pareceu mais possível. Ao lado da pista, um soldado gritava, corre para não ir pro 18.


As ameaças que não conhecemos são sempre mais ameaçadoras.


O que quer que fosse o 18, o melhor era não conhecê-lo.


Na bateria seguinte, um herói fez cem metros em onze segundos, mas os outros marcaram doze e treze mais uma vez. Havia esperança. Resolvi alongar as pernas. Comecei a considerar que seria possível, se eu me entregasse completamente. Segundo a autoridade camuflada (que depois eu veria tantas vezes reencarnada ao longo da vida), tudo era uma questão de vontade.


Tomei minha posição. A linha de chegada não parecia estar longe de nós. Arranquei com força. Durante uns cinco segundos, segui lado a lado com os demais. Da metade em diante, por mais que eu exigisse de minhas pernas, uma distância fatal começou a se abrir. Cruzei com dezessete segundos.


Como fui o único a fracassar, ofereceram-me uma segunda chance. Eu achava que jamais conseguiria, mas supus que uma desistência agravaria minha situação.


Corri como um louco, como um condenado. Quase caí duas vezes.


Dezesseis segundos e meio.


Logrei a honrosa trigésima segunda colocação entre trinta e dois corredores. Meu recorde pessoal.


Quando fui dispensado, meses depois, acreditei ter sido por aquela melhora de meio segundo.


É o que chamo de piedade olímpica.

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