DA TORRE - Cavalinhos


Ele entrou mancando na academia, sem a extroversão de sempre. Autointitulado O Alemão Louco, há dois meses vinha estabelecendo novos recordes para o uso do Equifort, anabolizante de equinos, comprado à socapa no jóquei, onde se dizia criador de manga-larga. Àquela hora da tarde, só os ferreiros habituais estavam presentes. Diga-se que há muito o estabelecimento — sem modalidades de dança, esteiras ou ergométricas — contava com uma clientela realmente exclusiva.


— Acabei de afundar a porta da geladeira com uma bica. Acho que quebrei a porra do pé.


Casos assim não eram estranhos. Um antigo maromba, então sumido no mundo, mas que por um longo período se picara com Durateston, tinha afundado o capô do próprio carro com um soco que, segundo ele, tinha endereço certo.


Diante do silêncio geral, perguntei o que havia acontecido. E se quase todos nós éramos evasivos ou nos constrangíamos diante do testosteronal descontrole, o Alemão Louco preferia ser o antigaroto propaganda da OMS.


— Cheguei em casa com uma fome do cão, abri a geladeira, só aquele branco. Aí guindei a porta com um chutão, bem no lugar em que minha mãe pendurava uns imãs de viagem. Voou lembrancinha para todo lado. Minha mãe veio correndo. Ela me disse que eu tinha virado um monstro e eu dei uma gargalhada.


E ele riu, talvez como em casa: mescla de ronco de bugio com ganido de cachorro, entrecortado por engulhos de gaivota.


— Agora estou que nem consigo caminhar. Vim ver se o Duca não me aplica uma dose. Esse negócio dos cavalinhos faz passar qualquer dor.


Olhamos para o Duca. Ele ergueu os ombros. Tentara convencer o Alemão a usar pelo menos o Equipoise humano, mas tinha recebido como resposta que os compostos eram o mesmo, o cara do jóquei garantirá, e só custava o quádruplo na farmácia para enganar os trouxas. O Duca ainda disse que os cavalos não reclamavam, e que, logo mais veríamos brotar uma crina em suas costas, ao que o Alemão relinchou por mais de um minuto, trotando entre os aparelhos.


— Chega de lero e manda ver — e expôs um ombro cheio de espinhas que mais pareciam furúnculos. E seguiu manquitolando até a mesa do instrutor, sacando do bolso uma seringa já pronta.


— Bah, que fome, gurizada. A geladeira estava vazia.

Às vezes penso na mãe do Alemão. Há metamorfoses difíceis de entender. Vejo-a tendo de recolher os recuerdos coloridos espalhados pelo chão da cozinha.

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