DA TORRE - Antes a arqueologia


“Enquanto os poemas podem muito bem ocorrer, é muito melhor que eles sejam causados”, disse o poeta Wallace Stevens. Descobri a frase há pouco, enquanto flanava por um livro de ensaios. Pareceu-me inteligente o raciocínio, avesso à platitude dos 90% de transpiração (marca de qualquer afazer humano). Pareceu-me tratar da busca pela escrita, por seus indícios, por suas origens, com mais arqueologia do que sorte, repassando de maneira ativa a experiência de estarmos no mundo, à caça do que pode ser convertido em palavras.


Coisa que a inspiração faz de imediato, quando vem, se vem. Para mim ela quase sempre veio arredia, manhosa, senão enganadora. Agradeço, em retrospectiva, ter vivido meus anos de formação na era analógica, quando a distância entre a mente e o livro era maior. Sem mediação, eu teria lançado frases e ideias nas redes que até poderiam engambelar alguns desavisados (entre eles eu mesmo), mas no dia seguinte deixariam apenas o constrangimento das coisas pouco elaboradas (o imediatismo das atuais publicações, a ausência daquela gaveta, de fermentação e cozimento, quem sabe tudo isso explique o valor abatumado de muito do que ora lemos).


De todo modo, não reclamo. Gosto de acreditar que recebi sua real graça umas poucas vezes. Em geral, no entanto, quando a inspiração vem, agrada-lhe o capricho de aparecer na hora em que não temos como anotá-la: no que sobrevive de um sonho às quatro da manhã, ou enquanto estou ensaboado, fustigando os azulejos com alguma ária, ou em reuniões e labutas intermináveis das quais não podemos fugir.


Mas e se pudéssemos ver essa ausência, como quer o Stevens, como um convite à virtude, como um processo criativo libertador, imprevisível, surpreendente?


Assim me posto em frente ao computador, e espero. Dou quinze minutos à inspiração, a cortesia máxima para um atraso. Depois começo a vasculhar os dias idos, os desconfortos do presente, à procura de um fio contato que permita ao mundo interior voltar à superfície. Repasso as falas dos que não estão mais, as memórias guardadas também no corpo, as escolhas equivocadas que ainda aqui repercutem. Os encontros frustrados, a alegrias incapazes de durar, a felicidade da cama dividida, o conforto do silêncio das manhãs. Evoco pratos que não serão mais preparados, o feijão da minha avó, e outras tantas receitas irrepetíveis.


Tudo isso podemos causar, se escrevemos.

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