DA TORRE - Uma apresentação

Atualizado: Abr 28


Quem sobe à torre, vê o mundo da altura de sua pequena janela, enquanto recupera o fôlego roubado à ascensão da escada sinuosa. Aqui, no entanto, respira-se sem medo, longe dos homens e dos negócios dos homens. E mesmo que haja qualquer coisa de clausura no teto baixo, na pontiaguda irregularidade de certas pedras do piso, é possível estar a salvo da inundação da realidade, a cada dia mais turva, lodosa e irreal.

Concebo esta torre ao modelo antigo, tomado de algum conto gótico, com um quê de masmorra de O Conde de Montecristo. Fosse-me um capricho modernista e a torre havia de ter uma luminosa visão panorâmica, portas espetaculosas de vidro, circundadas por um mirante, aberto ao turismo das multidões selfialimentadas. Da minha torre, o que a vista oferece é um pouco de verde, algumas árvores raquíticas, um semirrio, mais bem um córrego que se perde entre as casas da vizinhança. Cobrindo as paredes úmidas e circulares, estocados em prateleiras abauladas, um milhar de livros, também úmidos, guardam as pretensões e os equívocos de outras eras: teóricos pós-modernos, romances japoneses, cursos abandonados de línguas exóticas, três ou quatro nichos de crítica literária. E poesia. Mais poesia do que poderei consumir em vida, o que é, para um leitor, o mais terno dos confortos: nunca leremos sequer nosso próprio acervo. Creio que o consumo compulsivo de livros é nossa maneira de servir ao mercado, enquanto sabotamos-lhe o senso de utilidade, sua obsolescência programada. Livros duram séculos, passam para as outras mãos que ficam.

Ler é, antes de tudo, um ato de sabotagem.

Por isso, cabe a Francisco de Quevedo, poeta do século de ouro espanhol, cumprir a função de patrono deste espaço, pois já estava em seu poema Da torre o plano para erguer uma fuga em forma de justa deserção. E ainda que não possamos viver com sua parcimônia de livros, a essência do que é ser um leitor pulsa neste quarteto há trezentos anos:


Retirado na paz destes desertos,

com poucos, porém doutos livros juntos,

vivo a conversar com os defuntos,

e escuto com meus olhos aos mortos.

Entre rascunhos de crônicas e vestígios de versos que não sabem se manifestar, permanecerei escapando-me, alienando-me, faltando aos compromissos com quaisquer causas correntes. Não devemos fidelidade nem ao lugar, nem às circunstâncias de uma época. A fidelidade se constrói num mútuo esforço de compreensão, numa mútua relevância relacional. Feito uma relação, assim virão estes escritos da torre, que a partir de agora compactuo com vocês.

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