Crônica DA TORRE - Pedras


Por vezes, penso que tudo depende das primeiras palavras que vão à página, do primeiro vínculo que os três primeiros termos estabelecem (segura ou frouxamente), e que depois a mente costuma segui-los em comboio — mesmo que submetida ao fantasma do descarrilamento.

É como apostar as fichas com a roleta girando.

Procuro não pensar que antes da primeira palavra manchar a página, há milhares de combinações. É preciso jogar.

Sorte que neste jogo as fichas se renovam ao pressionar da tecla delete. Se à falência do mundo real se seguisse a falência do mundo aqui, não haveria Serasa suficiente.

Escrever é uma forma rara de risco, contudo. Pois ainda que muitas vezes tenhamos a impressão de sustentar o fio do assunto do texto entre os dedos, a conversão de ideia em matéria verbal nunca se dá sem corrupções ou descobertas, sem inesperados erros e também milagrosos acertos.

Ditados por caracteres.

Uma palavra perturba a ordem caótica da página em branco com a ordem pseudo-ordenadora das letras em negro.

E rompe com a ideia clássica — válida, é certo, para o mundo natural —, de que nada pode vir do nada. Do nada branco emergem essas pedras negras.

E uma nova ordem que, mais ou menos a partir da terceira palavra, reduz drasticamente as probabilidades eletivas. Ao cravar a expressão “por vezes”, à abertura do texto, caíram-se-me uma série gigantesca de possibilidades. Logo eu disse “penso que”, e então um certo caminho passou a se impor, a se desenhar, rumo a um ponto final. Depois do qual outras aventuras se abriram, cada vez mais conformadas pelo tema, pelas ideias que foram se coadunando, adquirindo uma lógica impositiva, até chegarmos aqui. Onde não mais podemos tudo, inclusive o delírio.

Víboras de acetato macaxeiravam sibilos comburentes e acachapantes.

De fato, reparem, não podemos tudo.

E talvez resida aí certa aflição que acomete muita gente ao ter diante de si a página em branco.

Não é o branco que assusta, mas sim as possibilidades que ele em si encerra.

A página é uma poça.

A página é um lago cegante.

Milhares de palavras estão ali, pedras submersas em suas profundezas claras. Insuladas. É somente na superfície do branco que elas se unem com alguma eficácia.

Uma eficácia pesada.

E não serão poucas as vezes em que preferiremos, após um excruciante combate, o retorno da planície líquida que jamais deveríamos ter tido a ousadia de alterar.

28 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo